terça-feira, 20 de outubro de 2015

O Impacto do Conceito de Cultura sobre o Conceito de Homem

DISCUSSÃO DE TEXTO



Clifford Geertz




PARTE I

A explicação científica não consiste na redução do complexo ao simples, consiste antes em na substituição de uma explicação menos inteligível a outra mais inteligível, e, no caso do estudo do homem, objeto da antropologia, em ordenar a complexidade, cuidando para não se tornar simplista. A tentativa de esclarecer ou de reconstruir um relato inteligente do que é o homem tem permeado todo o pensamento científico sobre cultura, desde os tempos do Iluminismo.

A perspectiva iluminista do homem era a de que ele constituía uma só peça com a natureza, em outras palavras, há uma natureza humana regularmente organizada, invariante e simples. Existem leis imutáveis e parte dessa imutabilidade às vezes é obscurecida pelas “armadilhas da moda local”, mas ela é imutável.  A perspectiva iluminista é uma perspectiva uniforme do homem.   Na perspectiva antropológica contemporânea, temos algumas reconsiderações.

A noção de que os homens são homens sob quaisquer disfarces e contra qualquer pano de fundo não foi substituída por “outros costumes, outros animais”. A ideia de que “qualquer coisa da qual a inteligibilidade, a verificabilidade ou a afirmação real sejam limitadas a homens de um período, raça temperamento, tradição ou condição, não contém (por si mesma) qualquer verdade ou valor, nem tem importância para um homem razoável. A diversidade, as variedades entre os homens, crenças e valores, aqui, é sem significado. 

PARTE II

Concepção estratigráfica:  Nome sugerido pelo autor para designar as alternativas de localizar o homem no conjunto de seus costumes que tomam o homem como constituídos por níveis ou camadas (biológico (orgânico), psicológico, social e cultural), sendo cada uma dessas camadas completas e irredutível em si mesma.

Consensus gentium (um consenso de toda a humanidade): uma das noções mais recorrentes, a noção de que há algumas coisas sobre as quais todos os homens concordam como corretas, reais, justas ou atrativas, e que de fato essas coisas. Este pensamento tenta formar um “padrão cultural universal” ou “tipos institucionais universais”, os “denominadores comuns da cultura”. Os universais culturais são concebidos como respostas cristalizadas a realidade de que não há uma generalização amplamente possível, são formas institucionalizadas de chegar a termos com a resposta que se busca.

Para Clifford, não existem generalizações que possam ser feitas sobre o homem como homem, além da que ele é um animal muito variado. As generalizações não podem ser descobertas por uma espécie de “pesquisa de opinião pública”. Os aspectos ditos culturas universais, se analisados com profundidade, serão modelados pelas exigências das sociedades a fim
de persistirem (família, filhos, estudo, saúde, etc.).

Consensus gentiun não pode produzir nem universais nem ligações específicas entre os fenômenos cultural e não cultural para explica-los, permanece a questão se tais universais devem ser tomados como elementos centrais da definição de homem. Todavia, a noção de que a essência do que significa ser humano é revelada mais claramente nesses aspectos da cultura humana que são universais do que naqueles que são típicos deste ou daquele povo, é um preconceito que não somos obrigados a compartilhar (p.31).

Porém, pode ser que nas particularidades culturais dos povos sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é “SER GENERICAMENTE HUMANO”.


PARTE III

Pelo caráter enormemente diverso do comportamento humano, seria simplista entrar em particularidades culturais para entender O Homem.  O ponto crítico não é se os fenômenos são empiricamente comuns, mas se eles podem ser levados a revelar os processos naturais duradouros subjacentes. Precisamos buscar relações sistemáticas entre fenômenos diversos e substituir a concepção estratigráfica das relações entre os vários aspectos da existência humana por uma concepção sintética que leve em conta os fatores biológicos, psicológicos, sociológicos e culturais, tratados como variáveis dentro dos sistemas unitários de análise.

Para uma imagem mais exata do Homem, Clifford sugere duas ideias: a) cultura como conjunto de mecanismos de controle; b) a necessidade deste controle para ordenar seus comportamentos.

a)      A cultura como “mecanismo de controle” inicia com o pressuposto de que o pensamento humano é tanto social como público, pois ocorrem num tráfego de símbolos significantes (palavras, gestos, desenhos, sons, objetos mecânicos ou naturais, qualquer coisa que esteja afastada da realidade e seja usada para impor um significado à experiência. Tais símbolos são dados, pois quando nascemos já os encontramos em uso na comunidade e permanecem após a sua morte, com alguns acréscimos, subtrações e alterações parciais das quais pode ou não participar.

b)      A cultura - “mecanismo de controle” - como necessidade. O homem precisa destas fontes simbólicas para encontrar apoios no mundo. Se não dirigido por padrões culturais (sistemas organizados de símbolos significantes) o comportamento do homem seria ingovernável, um simples caos de atos sem sentido e de explosões emocionais, e sua experiência não teria qualquer forma.


A cultura, a totalidade acumulada de tais padrões, portanto, não é apenas um ornamento da existência humana, mas uma condição essencial para ela – a principal base de sua especificidade. Não existe natureza humana independente da cultura. Os homens sem cultura seriam monstruosidades incontroláveis, com poucos instintos úteis, sem sentimentos reconhecíveis e nenhum intelecto, somos incapazes de organizar nossa existência sem cultura. SEM HOMEM NÃO HÁ CULTURA, MAS SEM CULTURA NÃO HOMEM.


PARTE IV

Quaisquer que sejam as abordagens para se entender O Homem em relação à cultura, essas trazem em comum o fato de tentar construir uma imagem do homem como um modelo, uma arquétipo. Mas, se queremos descobrir o homem, só o podemos descobri-los naquilo que são: “e o que os homens são, acima de todas as outras coisas, é variado”.

Para encerra e justificar o título, Clifford expõe acerca do conceito de cultura e o impacto no conceito de homem:
Quando vista como um conjunto de mecanismos simbólicos para controle do comportamento, fontes de informações extrassomáticas, a cultura oferece o vínculo entre o que os homens são intrinsecamente capazes de se tornar e o que eles realmente se torna, um por um. Tornar-se humano é tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção de padrões culturais, sistemas de significados criados historicamente em termos dos quais damos forma, ordem, objetivo e direção ás nossas vidas.

Para entender Homem e Cultura, temos que descer aos detalhes, além das etiquetas esmagadoras, além dos tipos metafísicos para apreender corretamente o caráter essencial não apenas das várias culturas, mas também dos vários tipos de indivíduos dentro de cada cultura, se é que desejamos encontrar a humanidade face a face.




REFERÊNCIA:

GEERTZ, Clifford. O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem. IN: A interpretação da cultura. RJ: LTC, 2013. p. 25-39.

Fonte: http://culturadetravesseiro.blogspot.com.br/2015/10/o-impacto-do-conceito-de-cultura-sobre.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+CulturaDeTravesseiro+(Cultura+de+Travesseiro)

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