segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O papel e a tinta por Da Vinci

Por: Eliana Rezende

Certo dia, uma folha de papel que estava em cima de uma mesa, junto com outras folhas exatamente iguais a ela, viu-se coberta de sinais. Uma pena, molhada de tinta preta, havia escrito uma porção de palavras em toda a folha.
— Por que você não me poupou dessa humilhação? — perguntou, furiosa, a folha de papel para a tinta.
— Espere — respondeu a tinta —, eu não estraguei você. Eu cobri você de palavras. Agora, você não é mais apenas uma folha de papel, mas sim uma mensagem. Você é a guardiã do pensamento humano. Você transformou-se num documento precioso!
E, realmente, pouco depois, alguém foi arrumar a mesa e apanhou as folhas para jogá-las na lareira. Mas, subitamente, reparou na folha escrita com tinta, e então jogou fora todas as outras, guardando apenas a que continha uma mensagem escrita.


A fábula traz em si o sentido de como o processo de produção origina um documento e com isso um testemunho para o futuro. Todos os que trabalham com as tintas que se derramam sobre o papel devem pensar sua produção como tendo valor de patrimônio e legado ao futuro.
Discussões sobre suportes e meios não importam tanto quanto aquilo que se imprime na folha que está em branco. Não são as tecnologias que trarão o sentido de inovação e sim as palavras! São delas este poder de permanência .
Com o "poder" da tinta sobre o papel desenham-se e materializam-se ideias que auxiliam o povoar e habitar de outras mentes e outros pensamentos: a escrita é virtuosa exatamente porque "contamina".
Tal como um vírus, ela se altera tanto quanto se dissemina.
Gosto de pensar que as palavras materializam ideias e disseminam prismas e quiçá num futuro, possam ser lidas como testemunho de um passado distante.
Únicos a ser capazes de atribuir sentidos, significados e sentimentos àqueles que em avulso representam apenas sinais pictóricos, o homem vive a crise dos suportes e dos meios tecnológicos.
E assim, que venham tablets, internet, e-books, ou quaisquer gadgets: coexistirão sempre com as palavras que lado a lado expressam ideias corporificadas e carregadas de sentido.

As apocalípticas profecias do fim de tudo, felizmente continuam a existir para que engrossem pilhas de não cumprimentos.

Felizmente a vida vai passando, com elas muitas tecnologias e nós vendo-as passar e coexistir.

Talvez seja essa a magia: perceber que tudo permanece pela eternidade que lhe é possível e em conformidade com o seu tempo e sua audiência.

Fonte: https://www.linkedin.com/today/post/article/20140823153801-125837292-o-papel-e-a-tinta-por-da-vinci?trk=object-title

Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte III

Por: Eliana Rezende

Este post encerra a série sobre escritos e leitores em tempos digitais. Longe de significar uma conclusão, coloca-se como sendo intenções de apontamentos impressos à tinta.

Você pode conhecer melhor toda a série de artigos seguindo os pontos destacados no texto a seguir. 


O século XXI está assistindo um ponto onde nossa sociedade coetânea passa pela dessacralização da escrita contínua, linear e exerce características intertextuais, que se fragmentam em múltiplos sentidos. 

Até o advento da web, o universo de produção da escrita era tangível. Poderíamos mesmo chamá-lo de analógico, pois encontrava nas palavras a forma máxima de sua expressão. As palavras nominavam ideias e ganhavam nas tintas impressas seu poder de materialização onde o dito e pensado vinham à existência, corporificavam-se.  

As entrelinhas eram caminhos extras para inquirir e perscrutar o passado, o dito ou escrito. Teciam possibilidades a partir do não dito. Ofereciam descanso ao olhar e esteio para a mente fluir. Descansavam a palavra, ao mesmo tempo em que ofereciam espaços suspensos para a imaginação trafegar. Era comum o leitor simplesmente pousar as mãos sobre os escritos e esperar que ideias e palavras se acomodassem à sua mente. A leitura seguia ritmada por movimentos de ir e vir no texto, no tempo, nos pensamentos. As palavras, degustadas uma a uma pelo leitor iam dando corpo ao que se chamava obra de um escritor. Tempos de comunicação estreita e de um diálogo constante entre o escritor e seu leitor.




Hoje, no entanto, nos defrontamos com um universo de representações e produções que em muitos casos nunca passarão pelos processos de materialização física e que não perdurarão o suficiente para chegar ao futuro. Escritos que surgem e que são substituídos quase que instantaneamente por outros revelam essa fluidez. Muitos são os estímulos e em geral não se dá ao leitor o tempo para estar a sós com o escrito. Espera-se sempre entretê-lo com imagens, movimentos, sons...  

O grande paradoxo que vivemos contemporaneamente é de como uma sociedade que produz tantos registros possa correr o risco de passar para a história como uma cultura quase ouvestígios.

De acordo com Lévy (1998):
"[...] Em vez de um texto localizado, fixado num suporte de celulose, no lugar de um pequeno território com um autor proprietário, com começo e fim formando fronteiras, o do World Wide Web confronta-nos com documentos dinâmicos, abertos, ubíquos, indissociáveis de um corpus praticamente infinito. Enquanto a página de celulose figura um território semiótico, a que aparece na tela é uma unidade de fluxos, submetida às limitações da vazão nas redes. Mesmo se nas suas bibliografias ou notas ela se refere a artigos ou livros, a página material é fisicamente fechada. A virtual, em contrapartida, conecta-nos tecnicamente e de imediato, através de vínculos hipertextos, com páginas de outros documentos, dispersas por todo o planeta, que remetem indefinidamente a outras páginas, a outras gotas do mesmo oceano mundial de signos flutuantes".
Como já ocorria com os suportes analógicos,  para cada fonte, obra ou registro tornado disponível outros tantos foram destruídos, ou em nosso caso nem passaram à materialização (LÉVY, 1998):
"[...] Levando-se em conta tudo o que foi dito antes, seria importante ressaltar que, atrás de cada documento conservado, há milhares destruídos. [...] 
 Na sobreposição de centenas de subjetividades e acasos, ele encerra a chave de acesso ao conhecimento do passado. Reafirmando-se seu senhorio dialético, criador/criatura, o documento, em si, torna-se uma personagem histórica, com a beleza da contradição e da imprevisibilidade, com as marcas do humano".
A fluidez, velocidade e interconexão na produção Web 2.0 colocam lado a lado Memória e Esquecimento, só que no sentido de interrupções de conexões, perdas de links e obsolescência. 

Será necessário entendermos e lidarmos com tais coisas. A obsolescência torna-se aqui metáfora para o esquecimento em tempos de imediaticidade e compartilhamento.


Escrito por: Eliana Rezende - Curitiba, Março, 2014
Sobre os tempos de tintas digitais, escritos e leitores, as questões são muitas e permanecem sem reposta:

Como será, em um futuro distante, tecer o que era a vida privada de toda uma sociedade a partir de correspondências mantidas por meio de correios eletrônicos, enviadas em cópias ocultas ou em blogs que deixaram de existir?

Soluções como herança digital já aparecem em preocupações de inventários e órfãos digitais surgem todos os dias após a morte de produtores de conteúdos em blogs e outras formas de presença virtual. Quem cuidará dessa herança? Quanto dela sobreviverá às perdas inerentes da obsolescência de que são vítimas?

Como mapear as imagens destruídas e por quais motivos, diante da obsolescência galopante de máquinas, equipamentos e arquivos?
Como tratar volume e dispersão de produções individuais e sociais perdidas em uma malha digital? 

E o que dizer da produção da chamada imprensa oficial, que por séculos representava o pensamento organizado de segmentos da sociedade? Representantes em tempos áureos da voz de uma minoria, e que atualmente cede espaço para inúmeras outras vertentes de pensamento que coabitam as sociedades e que se exprimem por inúmeros veículos de comunicação. São vozes dissonantes que registram fatos, impressões e dão sobre eles interpretações subjetivas e locais.

E sobre contextos e circulação? Como defini-los? Eis aqui uma grande dificuldade!
Quem é o leitor e quem é o autor em ambientes da web? Qual é o produto e de quem é sua propriedade?

Indicações materiais de autenticidade (tão caras à diferentes pesquisadores) tais como: assinaturas, datas e outros indícios buscados como preciosidades em cartas, imagens e outros documentos passam a encontrar sérias dificuldades quando não se sabe quem, quando, onde e sob que circunstâncias tais registros foram produzidos.

Nesse sentido, a construção de tessituras sociais com camadas e espessuras próprias necessitará, por parte de quem investiga, maior fôlego e sutileza. Afinal, as relações construídas partirão de universos que irão muito além dos espaços compartilhados geograficamente. Haverá partilhas em espaços virtuais, onde as proximidades e distanciamentos se construirão a partir de outras propostas, usos e funções. Repensar estas teias e compreendê-las em suas dimensões será um grande desafio.

A cultura de consumo e produção excessiva cria um culto ao descarte e a voracidade que impossibilita atividades simples como o reter, o guardar para o porvir. 

Muitas serão as questões para problematização que futuros historiadores e demais pesquisadores encontrarão. Talvez um ponto de partida seja tomar em consideração que a pesquisa, seja ela histórica ou para outros fins, precisa se adequar ao novo ambiente que temos: Escrito por: Eliana Rezende - Curitiba, Março, 2014

A escrita, tal como a leitura, ganha novas formas de manifestação (CUNHA, 2011):
"[...] Ação da mão sobre papéis, sobre telas, sobre pedras e onde mais for possível deixar traços, a escrita registra, inventa e conserva sempre mais ou menos, ao contar, muitos atos da experiência humana. Como ferramenta de uso social, a escrita pode salvar do esquecimento ao fixar no tempo vestígios de passados e, assim, escrever se constitui em uma forma de produção de memória e, por conseguinte, em instrumento de construção do passado."
E aqui chegamos ao ponto inicial: a escrita é ferramenta de uso social e meio de tentar explicar e entender o ambiente que cerca indivíduos, sociedades e culturas. São impressões de mundo que se materializam em diferentes suportes, e que por tentar salvar do esquecimento oferecem vestígios de um passado, de um tempo que não mais nos pertence. 

São com tais ferramentas que o investigador lapida e perscruta o passado, buscando em suas frestas algum lampejo que revele nuances de um tempo que se foi.

Fonte: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/04/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e.html

Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte II

Por Eliana Rezende

Em um post anterior, procurei abordar as questões referentes a fluidez de escritos propiciada por diferentes suportes neste principio de século XXI e os desafios que se colocam à profissionais das áreas das Ciências Humanas.


Se num primeiro momento concentrei-me nas formas e possibilidades de escrita, neste outro momento estarei atenta a desenvolver outra perspectiva:

Em outra margem e não menos importante, teremos a leitura.
Tal como várias outras formas de aprendizagens, sociais e culturais, obedecem a determinados códigos: haja visto que até a forma como deslocamos nosso olhar indica uma ordem que, para o ocidental, vai da esquerda para direita e de cima para baixo. Convenções estas que se colocam como contexto/parâmetro para que a  leitura se dê. A seguir, procede-se à leitura propriamente dita e que muitas vezes não é feita palavra por palavra. Em geral essa leitura possui uma forma geométrica, semelhante ao desenho da letra F.

Acompanha essa forma de leitura um código postural e gestual: que nos dias de hoje é feito, em geral, silenciosamente. A leitura em voz alta é utilizada em situações específicas com objetivos claros: em geral como meio de ter atenção para o que se lê, e aí pode ser uma situação pessoal ou nas formas clássicas de aprendizagem por iniciantes. Lemos com todo o nosso repertório social , cultural e pessoal (este composto por experiências sensoriais e intelectuais). Escrito por: Eliana Rezende - Curitiba, Maro de 2014
O bom leitor será arguto, profundo e fará conexões com outros escritos e experiências anteriores presentes em seu repertório. Conexões de sentido e apropriações serão bem vindas.


Com os suportes em formato físico as experiências táteis e sensoriais, serão muito maiores, não precisamos de intermediários como: aplicativos, tecnologias, gadgets em geral. Basta-nos a experiência do silêncio da alma e a inquietude do espírito. A viagem se dará e fronteiras serão rompidas.

Roger Chartier usa a expressão “códigos de leitura” e sua aplicabilidade ao campo da leitura de imagens também procede. Se pensarmos na fotografia, temos o fotógrafo nos dirigindo o olhar e nos indicando para onde, e o que olhar. Caberá ao espectador filtrar isso e aplicar sentido ao que vê.

Essa forma de argumento pode ser aplicada a diferentes mídias e suportes e, por isso, adoto aqui o termo texto ou escrita independente do suporte, mídia ou conteúdo. Assim pensado, o texto é único, porém com tantas e grandes possibilidades de leitura e interpretação!

Para além dessa ampla produção de novos suportes para o registro de escritas, o mundo contemporâneo também produz outra categoria de leitor e de produtores de conteúdos: não teremos mais epístolas ou registros seriados e linearmente postos.


A escrita e a leitura se colocam de outra forma: a escrita não possui mais o componente de linearidade que conhecíamos e diferentes narrativas podem dar-se. Um blog, por exemplo, que seria em outros tempos um diário, apresenta em seu entremeio escritos, imagens, vídeos, sons e que não se encontram dispostos naquela mesma página.

O leitor, por outro lado, é movido e hiperlinkado para outros rumos. O encadeamento do escrito não é de quem escreve, mas muito mais de quem lê e da forma que escolhe como leitura. É nesse contexto que o documento de hoje é produzido e é  nessa economia que circula, divaga virtualmente, desterritorializado, numa fragmentação veloz de tempos e espaços.

A narrativa se liberta de seu produtor imediatamente após a sua produção e é nesse sentido que paradigmas necessitarão ser revisitados, repensados e intermediados por muitas outras áreas.

Construções identitárias a partir de relações de convívio sociais serão infinitamente mais trabalhosas de se reconstituir pelos pesquisadores do futuro próximo. As trilhas deixadas terão muitas vias, acessos e saídas.

Neste princípio de século XXI sentimos esta transição que é cultural, social e, principalmente, de formatos e tecnologias. Muito natural que sintamos um tempo como se vivêssemos uma vaga. Com certeza  as civilizações que nos sucederem não terão estes questionamentos e poderão achar pueris nossas elucubrações.

Decisivos para essa nova forma de comunicação escrita são os hipertextos e a disponibilidade de tecnologias cada vez mais amigáveis do ponto de vista de compartilhamentos. Nas palavras de Assmann (2000):
[...] Do ponto de vista técnico, o hipertexto foi a passagem da linearidade da escrita para a sensibilização de espaços dinâmicos. Como conceito de conectividade relacional mediada pela tecnologia, podemos definir a hipertextualidade como um vasto conjunto de interfaces comunicativas, disponibilizadas nas redes telemáticas.
No interior de cada hipertexto, deparamo-nos com um conjunto de nós interligados por conexões, nas quais os pontos de entrada podem ser palavras, imagens, ícones e tramações de contatos multidirecionais (links). É importante destacar que o hipertexto contém geralmente suficientes garantias de retorno para que os sujeitos interagentes não se percam e se sintam seguros em sua navegação.
Acomodando-se nesse mundo da quantidade que, em muitos casos, leva ao detrimento da qualidade, temos 140 caracteres (Tweeter) que buscam uma escrita ágil e encontram um leitor pouco atento e muitas vezes sem foco ou concentração. Conexões entre sujeitos e pensamentos potencializam-se e constroem-se. A interlocução chega sempre na horizontalidade e caracteriza-se pela desterritorialização das ideias, de seus sentidos e de seus produtores e consumidores. 

Uma nova cognição se configura e denota uma forma diversa de pensar  relações e a construção de diferentes saberes.

Outra vez, Assmann afirma: (2000) sobre cognição e aprendizagem:
[...] As novas tecnologias da informação e da comunicação já não são meros instrumentos no sentido técnico tradicional, mas feixes de propriedades ativas. São algo tecnologicamente novo e diferente. As tecnologias tradicionais serviam como instrumentos para aumentar o alcance dos sentidos (braço, visão, movimento etc.). As novas tecnologias ampliam o potencial cognitivo do ser humano (seu cérebro/mente) e possibilitam mixagens cognitivas complexas e cooperativas. Uma quantidade imensa de insumos informativos está à disposição nas redes (entre as quais ainda sobressai a Internet). Um grande número de agentes cognitivos humanos pode interligar-se em um mesmo processo de construção de conhecimentos.

[...] Isto significa que as tecnologias da informação e da comunicação se transformaram em elemento constituinte (e até instituinte) das nossas formas de ver e organizar o mundo. Aliás, as técnicas criadas pelos homens sempre passaram a ser parte das suas visões de mundo. Isto não é novo. O que há de novo e inédito com as tecnologias da informação e da comunicação é a parceria cognitiva que elas estão começando a exercer na relação que o aprendente estabelece com elas.

[...] Em resumo, as novas tecnologias têm um papel ativo e co-estruturante das formas do aprender e do conhecer. Há nisso, por um lado, uma incrível multiplicação de chances cognitivas, que convém não desperdiçar, mas aproveitar ao máximo. Por outro lado, surgem sérias implicações antropológicas e epistemológicas nessa parceria ativa do ser humano com máquinas inteligentes."


Ações, escritos e produções se fazem cada vez mais com o que se chama de “desintermediação”. Em toda a história do homem, intermediários eram necessários para que a comunicação se fizesse e gerasse informação relevante. Hoje, contudo, tal necessidade deixou de existir e as relações passam a ser cada vez mais desintermediadas.

Nas palavras de Lévy:

[...] Até agora, o espaço público de comunicação era controlado através de intermediários institucionais que preenchiam uma função de filtragem e de difusão entre autores e consumidores de informação: estações de televisão, de rádio, jornais, editoras, gravadores, escolas, etc. Ora, o surgimento do ciberespaço cria uma situação de desinformação, cujas implicações políticas e culturais ainda não terminamos de avaliar. Quase todo mundo pode publicar um texto sem passar por uma editora nem pela redação de um jornal. O mesmo vale para todos os tipos de mensagens possíveis e imagináveis (programas de informática, jogos, músicas, filmes, etc). Passa-se assim, de uma situação de seleção a priori das mensagens atingindo o público a uma nova situação, na qual o cibernauta pode escolher num conjunto mundial muito mais amplo e variado, não criado pelos intermediários tradicionais.
Nosso tempo assiste a noção de que os meios digitais, são antes de tudo, uma metalinguagem que conseguiu fazer com que todos os conteúdos e formatos fossem libertados de seus suportes analógicos. Com isto, novas relações se constituíram e ainda estão em constituição. Infinitas composições, agrupamentos e criações se fazem, se fundem e nunca temos algo que esteja acabado e pronto.

Neste ambiente, a constante renovação e substituição, é imprescindível e alcança maior autonomia na mesma medida em que as inovações tecnológicas chegam. Muitos autores em obra aberta (wikis, por exemplo) acrescentam e são acrescidos a todo momento até que a mesma é dada por encerrada e colocada para ser consumida por leitores igualmente ávidos. Muito mais seduzidos pela novidade em si do que propriamente pela reflexão aprofundada dos temas expostos.

fonte: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/03/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e_23.html

Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I

Por: Eliana Rezende

De uma velocidade de ritmos e de suas relações, surge um mundo feito em compartimentos e uma explosão tecida em rede e composta por núcleos que se aglutinam e se afastam imitando o que seja viver em uma sociedade análogo-virtual.

São fragmentos compostos por pequenos textos, vídeos e mesmo imagens, que são concebidos e produzidos com intenções explícitas, quer por sua divulgação, quer por sua destruição. As formas de descarte são profundamente acentuadas e circunstanciada subjetivamente: a penúltima produção cede sempre lugar à última e que em vários casos encontra numa tecla delete o seu destino final. Tudo é facilmente substituído pelo imediatamente posterior. Ao “consumidor” final fica a incógnita dos objetivos, opções e escolhas tanto de uma ação quanto de outra.


As repercussões que tal ambiente, vivido e compartilhado em redes terá sobre comportamentos, ações e produções sociais, culturais e pessoais ainda gatinham. Estudos mais aprofundados precisarão e irão surgir como forma de remeter e verticalizar essas dimensões.

O que é indiscutível dizer é que as pessoas constroem uma representação de si (persona) tal como sempre o fizeram, o que ocorre no cenário atual é que as dimensões e o universo dessa exposição (avatar) são muito diferentes da que ocorria em tempos passados. Avatares (personas virtuais) expostos em compartilhamentos na rede possuem a possibilidade de ser construídos infinitamente pelos seus próprios produtores e reprodutores. Cortes e recortes são possíveis tanto quanto prováveis e tantos quantos queiram modificam o que tem em mãos para, em seguida, compartilhar a inúmeros outros.


Desse mundo editado e reeditado, fragmentado inúmeras vezes, os espaços de privacidade encurtaram-se. O ciberespaço oferece a dificuldade extra para que indivíduos consigam construir tais pontos. Anteriormente, eram físicos e circunscritos aos nossos locais de trabalho, a casa, a escola, nosso quarto: era simples defini-los. Hoje há uma movimentação tão grande e por tantos que a maioria não sabe bem onde acaba um e começa o outro, ou se de fato terminam! Espaços pessoais ou individuais, públicos ou sociais são movediços e se justapõem.

As chamadas correspondências ordinárias, biografias e mesmo diários, que forneceram tantos subsídios a gerações de historiadores e outros pesquisadores de diferentes áreas para análise e reflexão, encontram uma brusca mudança de formas e conteúdos. Em alguns casos, determinados formatos e padrões desaparecem ou vivem à beira da extinção.

Registros de próprio punho e correspondências com emissários definidos: algo totalmente em desuso e que inviabiliza a mais simples e primitiva forma de investigação composta por troca de ideias, pensamentos e sentimentos entre partes, está rapidamente desaparecendo. Substituídos por links, hiperlinks, textos, blogs, wikis e todas as formas de comunicação imediata, que são simplesmente tiradas do ar muitas vezes antes que as consigamos ler em sua inteireza. Conexões de sentido que ligam e linkam ideias e contextos perdem-se em malhas de sentido e, em muitos casos, pouco do que foi sua origem permanece.




Fonte: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/03/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e.html

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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Qual o perfil do Gestor de Conhecimento?

Por: Eliana Rezende

Gosto sempre de incentivar as pessoas interdisciplinarmente. Não creio num mundo compartimentado, creio num mundo que integre vários modos de pensar!

É este novo mundo que se descortina para nós. Buscar conexões possíveis entre áreas e manter o espírito aberto para dialogar é o que nos deve manter.

Sempre digo que nesta seara falo não como uma especialista, mas antes de tudo, como uma observadora.
Eu própria tenho minhas reservas até mesmo em relação ao termo "Gestão do Conhecimento", e acho que prefiro a expressão “Gestão em Conhecimento”. Mas abstraindo-me de tudo isso lancei a discussão por crer que toca a todos sem distinção, direta ou perpendicularmente.

Escrito por: Eliana Rezende - Curitiba, Fevereiro/2014
Sou uma humanista. Apenas e tão somente... por isto, tantos temas e inquietações. A possibilidade de aprender com outros e dividir prismas é o meu objetivo. E num tema como este não poderia ter outro olhar.

Percebo como necessária esta forma de ver e conceber empresas que estão aprendendo a gerir seu capital intelectual. Isso é bastante significativo quando pensamos que cada vez mais lidamos com massas de informações que podem ou não gerar conhecimento e inovação e que em boa parte dos casos podem estar retidas também em formas de experiências profissionais de cada um.

Gosto sempre de frisar isso, pois na minha concepção o Conhecimento não é algo que preexiste em algum lugar e simplesmente o tomamos. Considero-o como o produto de uma ação consciente em transformar informação em algo mais. É uma ação consciente que parte de um individuo e de seu repertório. Repertório esse alimentado por toda a gama de experiências que possa ter.
Tomando-se esta perspectiva não acredito que atores extrínsecos ao indivíduo possam gerir aquilo que é de sua absoluta competência. Por isso, não gosto da expressão Gestão de Conhecimento. Podemos sim ter agentes facilitadores para que esse Conhecimento circule e gere novas possibilidades de criação e inovação.  

Aproveito como forma de enriquecer ainda mais o debate, uma sugestão do Professor Aldo Albuquerque.
Em suas palavras:
"Como podemos definir "conhecimento" em uma sociedade pós-industrial equipado com novas mídias, tecnologias de comunicação instantânea e acesso universal à informação? Quem controla a sua transmissão? Como pode o conhecimento ser legitimado? Estas são as perguntas de Lyotard em seu livro "A condição pós-moderna". Ele acredita que o método de legitimação tradicionalmente utilizado pela ciência, um discurso que faz referência a uma metanarrativa torna-se obsoleto em uma sociedade pós-moderna.
Em vez disso, ele explora as comunidades de significado como o novo caminho para esta legitimação".
Ver http://bit.ly/w8lYsI

De um outro lado, o professor Jones da University of Washington, USA que alega que a definição desse profissional é uma tarefa difícil. Ele indica isso fortemente em um artigo recente (e que você pode ler a seguir), de nome: "Nenhum conhecimento existe sem uma informação" [No knowledge but through information] by William Jones. First Monday, Volume 15, Number 9 – 6 September 2010 http://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/view/3062/2600
Escrito por: Eliana Rezende - Curitiba, Fevereiro/2014

Daí a importância não apenas de produzir informações, mas essencialmente de distribuir criativamente o que se tem e manter uma inquietação necessária aos constantes acréscimos.

Questões sobre como oferecer o ambiente propicio para que tal ciclo virtuoso ocorra é um dos desafios das instituições. Não basta ter planos, estratégias, metas bem traçadas e delineadas, índices de performance (KPI)  se no seu corpo faltarem profissionais com tal espírito compartilhador e interdisciplinar. Sob esta ótica, é preciso não de “tarefeiros”, meros executores, cumpridores de metas e afins, mas antes de tudo são necessárias pessoas com a capacidade de engendrar e compartilhar... com espírito colaborativo  e motivador  da criatividade e Inteligência própria e alheias.
Não creio em receitas prontas, e muito menos daquelas que seguem em listas com os 10 pontos...os 6 ou os 5 pontos... Isso não existe! Acho que o primeiro passo efetivo a ser dado é reconhecer que as receitas não servem à pessoas! São eficientes na culinária! E dependendo de quem as faz ainda pode dar errado só com perdas de ingredientes. A metáfora aqui é excelente: já que uma empresa pode ter ali todos os ingredientes que resultarão em algo muito bom, mas se o profissional responsável em conduzir o processo não tenha esse cabedal, tudo se perde.  A Escrito por: Eliana Rezende - Curitiba, Fevereiro/2014
Acredito sim, que pessoas com o perfil citado acima e que tenham um bom repertório intelectual, metodológico, amplamente experienciado em suas vivências profissionais garantirá maiores chances de êxito, apenas e tão somente isso.

Imponderáveis poderão ocorrer quando o mesmo indivíduo estiver submetido à diferentes grupos de indivíduos e/ou instituições. O mesmo profissional terá resultados diversos de acordo com o ambiente e a cultura organizacional em que estiver inserido.

Creio sim em lapidação! E essa precisa e deve ser feita. Reside aqui uma característica importantíssima: o candidato a Gestor de Conhecimento deve ter antes de tudo essa humildade de entender que sempre estará aprendendo e assimilando coisas. Nunca poderá ter a atitude presunçosa de achar que sabe o suficiente.

De novo insisto que a questão da interdisciplinariedade me seduz e não consigo pensar em trabalho que não seja assim, em especial quando envolve um grupo. Gosto dos grupos e das possibilidades advindas por múltiplos olhares. Em minha experiência vejo a necessidade de muita flexibilidade, é um esforço pessoal, mas sinto-me recompensada. Preciso lidar com pessoas de diferentes áreas e formações para que juntos possamos construir na instituição as normas, procedimentos e ações em torno da Gestão da Informação. 

No desempenho desta atividade, noto que o grande hiato entre diferentes áreas é a segmentação e, destarte, a dificuldade de interlocução. As pessoas costumam estar sempre muito voltadas para o seu "centro" e desperdiçam oportunidades de ver o que está ao seu redor.

Creio que neste ponto a metáfora que se adéqua é a do fazedor de pontes... Não devem haver muros e divisões e acho salutar que as fronteiras sejam movediças e todos troquem suas fontes e aprendam com a flexibilidade. Essa é uma característica muito importante a ser desenvolvida.


Dito isso e retomando nossa questão inicial de: qual é o perfil teria desse profissional Gestor de Conhecimento, segundo a minha perspectiva?
Vejamos: 

Tal profissional deve se capaz de aceitar respostas diferentes para as mesmas perguntas.
Dever ser do tipo que não descarta a priori como erradas respostas que apenas sejam diferentes das suas. Em muitos casos não há certo ou errado: há apenas o diferente!

Deve saber liderar equipes trans e multidisciplinares, ter sempre uma atitude de facilitador para que trocas e aprendizagens se façam. Deve ter uma atuação de empatia e acesso ao outro: só assim o valor de subsidiar esclarecimento de dúvidas, estímulo à interação e o compartilhamento se efetivarão.

Precisa ser um profissional com livre trânsito e acesso à Geração Y e conhecer de perto a matéria-prima e DNA de que sua instituição é feita. É preciso ser alguém que não apenas conheça, mas que faça circular atributos da cultura organizacional: valorizando-a e aprimorando-a tanto quanto possível a partir da experiência de todos.

Dever ter espírito curioso e interessado: ser humilde e reconhecer que aprende sempre e todos os dias. E mais do que isso: ser generoso em partilhar e distribuir o que sabe!

Deve ter profundo interesse pelo aprimoramento e aprendizagem não apenas de si próprio, mas de todos os que lhe cercam tirando de cada oportunidade e pessoa o seu melhor.

De todos essas características, ser bom ouvinte é dos exercícios o que o Gestor de Conhecimento deve procurar melhor desenvolver. Dar-lhe-á o sentido do respeito à experiência do outro.

Por trabalhar com Projetos de Memória Institucional é usual recorrermos à metodologia de coleta de depoimentos e isso nos dá sensibilidade e proximidade com a construção de outros saberes e outras perspectivas que informam o presente e engendram outros caminhos e possibilidades. 

fonte: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/02/qual-o-perfil-do-gestor-de-conhecimento.html

Ler de forma produtiva. Mas como?!

Por Eliana Rezende:

Muito se tem dito e escrito sobre a qualidade dos leitores em tempos de tantos estímulos digitais.
Desconcentração e desinteresse tendem a encabeçar quase todas as listas.
A seguir e bem de perto estão a preguiça, dificuldade de retenção e compreensão do que se lê.

Sem entrar nos méritos da alfabetização ou sua ausência, do analfabetismo funcional e problemas com o ensino desde sua base, algumas sugestões podem e devem ajudar quem, de fato, quer ou precisa ler e ainda não aprendeu como.

Aqui a sugestão é para leituras técnicas ou de conteúdo profissional e que necessitam de uma outra forma de leitura daquelas que destinamos a romances e entretenimentos de horas de lazer.


Vamos ver se consigo:
  • Crie o hábito de tracejar o que lê. Isso mesmo! Use um lápis (nada de marcadores e canetas! Estes estragam seu livro). Procure um lápis macio (6B ou mesmo um integral seriam fantásticos).
  • Munido desta ferramenta aprenda a sinalizar o que lê. Encontre uma sinalética que te dê pistas se o assunto é interessante, repetitivo, se você já leu em outro lugar, etc.
  • Não grife parágrafos inteiros! Escolha palavras que sintetizem a ideia do parágrafo. Assim quando bater os olhos na página não terá que ler todo o conteúdo novamente.
  • Procure anotar títulos que te façam saber do que o parágrafo ou a página tratam.
  • Relacione a leitura desta página com outra que a complemente, ou mesmo outra obra e autor.
  • Estabeleça uma relação com o autor. Faça-lhe perguntas e procure encontrar as respostas enquanto lê. Dessa forma ficará atento e a concentração será consequência deste diálogo silencioso.
  • Este recurso também pode ser usado quando lembrar do argumento de outro autor. Interpele o atual sobre o que o outro disse e tente encontrar uma resposta satisfatória.
  • Tenha sempre um dicionário por perto. A leitura é fantástica para descobrir novos significados para as palavras, bem como seu emprego na construção de uma ideia.
  • Achou uma palavra nova? Não a perca! Escreva ao lado dela o seu significado. Você provavelmente não decorará de primeira.

Logo nas primeiras páginas pergunte-se:
  1. Qual é o objetivo do autor? O que o autor quer com seu escrito? Ele está vendendo uma ideia ou um produto? É importante descobrir qual é o seu objetivo para que ao término da leitura você possa qualificar de boa ou má sucedida sua obra em relação a você. Isto será importante para que você seja capaz de argumentar se gostou ou não do que leu e o quanto ficou convencido pelo exposto.
  2. O que ele está defendendo?
  3. Com quem ele fala? Conversa ou rebate a ideia de outro autor? Ou tenta expor e propor uma nova ideia ou conceito?
  4. De onde o autor fala? Ele é do mercado de trabalho, da academia ou é um empreendedor? Atentar para isso pode ajudar a compreender seus argumentos. Ele procurará falar aos seus pares e saber quem são lhe ajudará a ter mais ferramentas para compreende-lo.
  5. Qual a data da publicação? Essa é uma pergunta interessante, já que se for um autor contemporâneo trará temas mais recentes. Mas às vezes é uma publicação escrita há décadas! Talvez seja um clássico, ou uma leitura obrigatória dentro da área de conhecimento. Saber quando uma obra foi escrita evitará que cometamos erros de interpretação, ou mesmo notar ausências de abordagens, pois estas só ocorreram muito mais tarde.
  6. O autor consegue convencer você ao final? Veja, o convencimento aqui é você cruzar o que era o objetivo inicial dele e como ele foi conduzindo você. Ao final, valeu a pena o percurso? Ele conseguiu cumprir o objetivo que se colocou?
  7. Suas ideias são claras ou já viu outros autores explicando melhor? Tente fazer estas conexões. Isto significará que você não está mais na superfície e que sua leitura está ganhando consistência.
  8. Ao concluir a leitura de um tópico ou capítulo, pergunte-se: "o que mesmo o autor falou?". E neste momento escreva em duas ou três linhas o que respondeu. Isso lhe ajudará a ir fixando as partes importantes de cada capitulo, sessão ou tópico. Ao término da leitura poderá se arriscar a ler tuas anotações e fazer a mesma pergunta só que para o livro todo e redigir um parágrafo síntese.
  9. Pode parecer bobagem, mas fazer isto pouco a pouco o ajudará a ir fixando o conteúdo e imprimindo sua compreensão ao que leu. Com certeza você irá mais longe em sua compreensão.

Se você prestou atenção, os recursos para ler um livro físico são os mesmos que você também pode usar em um livro ou paper digital. A via é a da comunicação. É preciso estabelecer uma relação de troca com o texto, com o escritor. Fale com ele! Feito isto não há leitura que seja difícil ou dura.

Fonte: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/08/ler-de-forma-produtiva-mas-como.html

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Escrita executiva: escrever bem é coisa séria!

Por: Eliana Rezende

No mundo corporativo é usual vermos executivos muito preocupados com seu inglês. Investem tempo e recursos na tentativa de o aprimorar julgando que isso o tornará melhor profissional em sua área de atuação.

Todavia, relegam as tarefas de redação, escrita e correção às secretárias, advogados, assessores. Esquecem-se que redigir e expressar-se em sua própria língua é algo fundamental. Deixam de ter claro que saber encadear e expor ideias é tarefa de um bom executivo.


A escrita, tanto quanto a leitura e a fala, são instrumentos de comunicação, e que como tais necessitam de  sentido de clareza, objetividade e correção.

A escrita é boa quando flui inteligível e estreita caminhos entre quem está de um lado e de outro.

Noto que em meios corporativos a escrita técnica avassala de tal forma que as pessoas parecem estar mais preocupadas em reproduzir chavões prontos do que pensar em algo mais original e pessoal ao redigir suas comunicações, infelizmente. Perdemos todos!
Palavras tornam-se bordões, esvaziam-se de sentido e significado. É só pensar em  palavras como inovação, criatividade, resiliência, entre centenas de outras.

O tema é importante de ser tocado por que em vários casos as pessoas esperam ter solucionado seus problemas de escrita apenas pelo uso de um corretor ortográfico e, na melhor das hipóteses, com o inglês corporativo, esquecendo-se de que dominar a língua pátria é a melhor forma de comunicar ideias.

Ser um executivo significa comunicar-se, não apenas usando a linguagem verbal, mas também as formas de escrita: as palavras precisam ser lapidadas e construídas com esmero... sempre! Esmero aqui significa uma linguagem apropriada ao seu objetivo. Ninguém precisará perder horas de seu dia tentando entender um texto mal redigido ou com ideias truncadas. Sem falar em construções com falhas de concordância, ortográficas ou verbais. 
Óbvio está que há diferenças consideráveis e consistentes entre indivíduos e profissões. Nem tenho a presunção de achar que todos em todas as profissões escreverão com a mesma facilidade e propriedade.


O ponto a que me refiro aqui é a escrita como forma de comunicação institucional e corporativa. Aquela que possa servir para comunicar ideais e conceitos. Neste caso, vejo como sendo muito importante o saber colocar-se e se fazer entender com clareza e objetividade por todos. Também não considero problema recorrer a ajuda de um especialista em redação para limpar o texto de aspectos da língua, mas considero que a essência de ideias, o ritmo e fluidez dos pensamentos devem ser de seu autor.

Diferente do escritor literato que fará um caminho de escrita que dependerá de um leitor/interlocutor, o executivo terá um público diverso, onde os códigos de leitura aplicáveis serão bem diferentes. É preciso a paciência lapidar de busca, esmerilho... muitas vezes a poda. Sim! Requer muitas escolhas e muitas mudanças de rumo e caminho. Talvez por isso seja um caminho de resistência e paciência.

É desse exercício cotidiano que se ganha "intimidade" com as palavras que encadeadas exprimem ideias e iluminam caminhos: por isso, ao trabalho!
Em sua forma primeira o tripé fala, escrita e leitura compõem um sistema que se retroalimenta: quanto mais e melhor leio, melhor me expresso e mais facilmente serei capaz de transmitir o que penso a outros.
Com isso os horizontes se alargam e isto num cargo de liderança executiva é fundamental. Saber e fazer-se entender!

A comunicação aqui não é apenas a de um projeto. Pode estar na simplicidade de elaboração de um e-mail ou de uma minuta contratual. Um executivo precisa saber usar a língua vernácula de seu país e dar ao escrito inteligibilidade coerente. Tanto em sua forma (ortografia) quanto de seu conteúdo (ideia).

É essencial dizer que a comunicação é o cerne de tudo e que mais importante do que "como" seja que ela ocorra. Mas a comunicação exige como condição que de um lado haja um emitente e que de outro lado haja um receptor dessa mensagem, e que ambos consigam trocar, ou seja, usarem o mesmo código. Quando essa troca não ocorre houve falha nos objetivos.
A comunicação (veja, falo como leiga... um especialista faria isso melhor que eu) para ocorrer sem problemas não deve possuir "ruídos", e esse ruído pode ser gerado exatamente na forma como as palavras e ideias são colocadas e encadeadas. Sempre o objetivo principal é alcançar a harmonia. Tal como na música, é fundamental para contagiar, agradar e ser entendida por todos. Repare como pode ser agradável:


Escrever não é simplesmente aglutinar palavras e jogar ideias a esmo. É preciso que faça sentido lógico para que pessoas diferentes, e mesmo que não sejam de sua área específica, as compreendam. É preciso que as ideias estejam ordenadamente amarradas. Precisam fazer sentido. Isto fundamental!

A escrita citada aqui é um trabalho de respeito e esmero que temos que aprender a desenvolver em respeito ao outro. Talvez a grande dificuldade de muitos executivos é não ter essa "empatia" ao outro quando escreve. Parte-se sempre da ideia de que "irão entender!".

No caso aqui, a escrita executiva tem que ter objetividade e assertividade para fazer sentido em seu universo de produção.

Em geral, executivos não são dados há tantas sensibilidades, mas a boa escrita cabe em qualquer lugar.

Definitivamente não se delega a terceiros e pode ser aprendida e cultivada.

Daí que escrita executiva é coisa séria! 

Fonte: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/08/escrita-executiva-escrever-bem-e-coisa.html